terça-feira, 29 de novembro de 2016

Gleison Júnior: empreendedorismo a serviço do Metal


Qualquer um que tenha o mínimo interesse pelo Heavy Metal neste país conhece ou pelo menos já ouviu falar de Gleison Júnior, o homem por traz do nome Roadie Metal, que abrange tantos serviços quanto vocês puderem imaginar, tudo em prol do que ele ama e do que acredita. Tivemos um bate papo interessantíssimo com Gleison, que foi muito sincero e direto em suas respostas, mostrando que além de empreendedor é um cara de visão. Confira a seguir.


HMBreakdown: Antes de começarmos, obrigado pelo seu tempo e por nos dar o privilégio dessa conversa. Agora, fale-nos sobre você e suas atividades.
Gleison Júnior: Tudo começou quando alguns amigos mais próximos me pediam sempre indicações de bandas novas e nacionais, no qual eu sou um profundo apaixonado e pesquiso sempre, após isso eu acabei me mudando para a cidade de Goiânia, no qual um tio meu é dono de uma Web Rádio, Canal Felicidade, em uma das visitas que fiz a ele, acabei pedindo uma oportunidade para apresentar um programa voltado ao Metal, indo na contra mão da proposta da rádio, mas o mesmo concedeu de imediato a oportunidade e ali se iniciou a Roadie Metal, programa que apresento oficialmente desde o dia 10 de maio de 2014, após isso através da Roadie metal, lancei 8 coletâneas físicas envolvendo mais de 250 bandas brasileiras, criei a assessoria de imprensa da Roadie Metal e estamos em processo de finalização do primeiro e único DVD de clipes da história do Metal nacional, isso sem contar o site da Roadie metal e ser o único programa de metal em uma FM no estado de Goiás.

HMB: Que tipo de adversidades você encontrou pelo caminho nesses anos?
Gleison: O mais difícil com certeza foi à falta de apoio no início e a desconfiança de muitos com o trabalho, sem contar os vários invejosos que sempre buscam armas para tecer críticas ao trabalho feito, mas tudo isso eu resolvo com apenas uma coisa, trabalho, enquanto muitos metem o pau e saem criticando, ao invés de fazer algo para o cenário, eu mantenho meus pés no chão e vou seguindo com trabalho e a constatação que isso está sendo bem feito é o crescimento diário que a Roadie Metal vem obtendo, tanto por parte do público quanto por parte das bandas.

HMB: Visto que nos dias de hoje às pessoas demonstram pouco ou nenhum interesse pelo lançamento e pelo material das bandas brasileiras (salvo raras exceções), porque você resolveu investir e lançar as coletâneas Roadie Metal?
Gleison: Justamente para tentar trazer o interesse do público, se para as bandas hoje é difícil vender e divulgar os materiais físicos. Imagine sem um apoio ou estrutura por trás delas, a intenção foi justamente facilitar a elas a divulgação, claro que é impossível uma coletânea com 34 bandas, conseguir agradar a todos de ponta a ponta, mas tenho certeza que cada um que ouviu ou possua uma das edições da coletânea da Roadie Metal, conheceram ou começaram a acompanhar algumas bandas, suas preferidas, através das edições. Isso é algo que acho foda, saber que alguém lá em Manaus hoje possui uma edição e se tornou fã da banda X por conhecer ela através da coletânea.
Outro fator importante ao lançar uma coletânea, visando à ideia da primeira edição, no início da Roadie, eu me deparava com várias bandas e músicos tendo dificuldade em divulgar e expandir seus trabalhos, com isso eu comecei a pensar uma forma de ampliar isso e de fato na época me lembro de apenas duas coletâneas sendo lançadas no Brasil, isso em material físico, sem contar que uma delas tinha bandas de todo o planeta, dando espaço para apenas umas três ou quatro bandas nacionais e a outra era apenas de um estilo, confesso que posso estar me esquecendo de outras que já foram lançadas, mas na época eram essas que tinham força, hoje uma delas não existe mais e a outra continua com sua ideologia de mesclar trabalhos de bandas de todos os locais, se reparar vai ver que a Roadie Metal fez um pouco de história, não por inventar a roda, mas por reviver algo que já foi muito importante, olhe ao redor o tanto de gente que está tentando ou lançando uma coletânea, até pessoas próximas a Roadie entraram nessa, desejo todo o sucesso do mundo, afinal isso é necessário, mas só os fortes irão sobreviver (risos).

HMB: Agora, na edição de número 8, você resolveu lançar a coletânea em DVD, porque optou por este formado e qual vem sendo a aceitação da ideia e deste tipo de material pelo público?
Gleison: Domingo é um dia que eu procuro não fazer nada, apenas curtir a esposa e os filhos, e em um desses domingos eu acordei com uma vontade de fazer algo diferente, algo jamais feito e que seria inovador e de súbito me veio o pensamento em fazer uma coletânea em DVD, apenas com clipes oficiais de bandas brasileiras, imediatamente comecei a pesquisar sobre isso e se já havia sido produzido algo nesse padrão no Brasil.
No mesmo dia liguei para o Vitor Rodrigues do Voodoopriest e lancei a ideia a ele, o cara adorou e de imediato já disse que a Voodoopriest estava confirmada no projeto, pesquisei por quase dois meses com produtores, imprensa, selos, distribuidoras e vários outros meios, todos afirmando que jamais haviam produzido isso no Brasil, então comecei meio que na surdina a conversar com bandas que possuíam material para o projeto, fiquei impressionado pelo interesse dos músicos em participar do DVD, somente quando eu finalizei as vagas que anunciei a produção desse trabalho, enfim hoje posso ter a certeza que a Roadie Metal será a primeira a lançar uma coletânea em DVD com clipes oficiais e distribuição gratuita no país.

HMB: Isso quer dizer que a Roadie Metal em seus lançamentos em CD irá ser substituída pelos DVD´s de agora em diante?
Gleison: Creio que não, afinal não são todas as bandas que possuem de recursos para produzirem um clipe, mas a ideia e diminuir a produção das coletâneas físicas, creio que o volume 10 pode ser uma das ultimas nesse formato, confesso que produzir uma coletânea é algo cansativo e complicado. Participo ativamente de todo o processo, desde a arte ao processo de prensagem. O DVD a ideia é lançar um por ano. Janeiro ou fevereiro sai o volume 1 e creio que em 2018 o volume 2.

HMB: Qual o critério usado para escolha das bandas que farão parte dos seus lançamentos?
Gleison: O critério é muito simples, a banda necessita ter um clipe profissional, não aceito lyric vídeo e nem web clipe e aceitar nossas condições e termos para participar do DVD.

HMB: Sim, entendo, mas eu me referia não apenas as coletâneas em DVD, mas as em forma de áudio também.
Gleison: Sim eu entendi sua pergunta, a resposta foi exatamente sobre os dois formatos, quando menciono coletâneas físicas me refiro as de áudio.

HMB: Hoje o nome Roadie Metal é associado ás coletâneas, ao seu programa de rádio e a sua assessoria de imprensa, como você se desdobra para dar conta do recado com tantos afazeres no dia a dia?
Gleison: Você se esqueceu de mencionar o site, no qual tenho 22 redatores e dois editores que sempre tenho que estar á disposição para esclarecer alguma dúvida e apresentar as pautas principalmente do quadro “Roadie Metal Cronologia”, confesso que para que tudo ande bem engrenado eu tive que remontar meu planejamento, geralmente quando começo meu dia eu já tenho o roteiro montado na minha agenda, tudo que faço foi devidamente anotado no dia anterior, essa organização me ajuda e muito para controlar meu tempo e não deixar nenhuma falha nas minhas responsabilidades.

HMB: E hoje, seus trabalho se pagam? É possível custear os investimentos e gastos e ainda viver do seu trabalho, ou você ainda busca outras fontes de renda?
Gleison: Claro que é pago, hoje em dia muita gente acha que um trabalho de divulgação em alto nível é possível ser feito de coração, mas não, infelizmente não possuo os recursos necessários para poder bancar uma coletânea com uma tiragem alta totalmente de graça, o Metal nacional não possui investidores para esse tipo de projeto, uma banda que ousa e busca maior evidência sempre irá investir no seu trabalho, seja em uma publicidade em revista, site, rede social ou em uma coletânea, ao investir na coletânea da Roadie Metal a banda está assegurando receber uma quantidade desse material para ela poder vender, distribuir, sortear, da forma que ela quiser, sem contar que a coletânea Roadie Metal é distribuída gratuitamente para vários veículos de comunicação, com resenhas pontuais nos principais meios do Brasil, existe a distribuição para o exterior no qual mando quantidades de CDs para selos, produtores e distribuidoras, a arte gráfica e de prensagem me custam caríssimos sem contar os custos dos correios, para eu enviar apenas os álbuns das bandas custa em média R$30,00 por envio, eu geralmente envio 250 pacotes, incluindo mídia, bandas, público e exterior. Ninguém é obrigado a participar, mas as bandas que participam no fim sabem que o investimento foi válido, sua banda tem a divulgação massiva feita por mim que incluí a distribuição das coletâneas, sendo que apresento a todas as bandas as respostas que obtenho em resenhas, divulgação individual de cada uma no site da Roadie Metal, divulgação no programa de rádio, sem contar a evidência em que ela entra ao participar, tenho muito orgulho hoje de ser responsável por uma das principais coletâneas de divulgação do país.
Para ter uma ideia, falando sobre o DVD, quando ele sair irá ser um projeto ousado, o custo real desse investimento feito por mim é de R$8.000, isso se deve ao fato de eu não querer um simples DVD, no qual tu abre o case pega a mídia coloca em seu aparelho e pronto, assiste o DVD, não, a ideia é causar impacto e com isso desenvolvi um projeto junto a empresa que irá prensar o material, no qual ao se obter o DVD e ao abrir ele, você terá um livro com aproximadamente 36 páginas, sendo cada página direcionada exclusivamente a uma banda, nessa página terá o release, foto da banda e do álbum, letra da música, formação, links de acesso, telefone de contato e outras informações que agora me fogem da cabeça, esse valor chegou a esse custo devido justamente a quantidade de laminas que serão utilizadas no livreto, agora imagine mais os custos dos correios, que só saberei no dia da postagem do material.
As bandas investem no projeto e eu garanto o retorno da publicidade e divulgação.

HMB: Qual é a sua visão do cenário da música pesada nacional?
Gleison: Essa é uma pergunta complicada e de duas pontas, a primeira é a vasta e maravilhosa quantidade de bandas novas que surgem no cenário. A força e manutenção em alto estilo das veteranas do nosso cenário, lindo ver bandas como Claustrofobia, Torture Squad, Panzer e várias outras lançando álbuns magistrais, ver como a cena se renova com bandas que surgem com produções impecáveis e belíssimos conceitos criados em suas obras.
O outro lado como dito que eu vejo como ponto fraco é a falta de união, o que tem de gente tentando derrubar o outro por inveja, ou simplesmente não ser capaz de criar algo útil é algo assustador. Outro ponto ruim é a pouca oportunidade que muitas bandas novas possuem para se apresentarem nos grandes festivais, esse ano muitos festivais ou iniciaram ou voltaram, ok! Apoiando o metal nacional, importantíssimo isso, mas olhando bem, quantas bandas novas realmente tiveram oportunidade nesses festivais? É culpa dos produtores? Acho que não, afinal se tu montar um cast só com bandas novas, não chama o interesse do público, mas de cinco bandas que participam desses festivais uma ou duas fossem da safra nova, estariam esses produtores ajudando a formar as novas lendas do metal nacional? Acho que sim, mas infelizmente isso não é visto por eles.
Dou meus parabéns aos produtores do underground, que fazem o lance na raça e as coisas mesmo sem condições mínimas de qualidade, simplesmente acontecem e as bandas conseguem apresentar seus trabalhos.

HMB: E em sua opinião, não acha que se tornou cultural ao povo brasileiro denegrir o seu produto (seja ele qual for) em comparação ao produzido em outros países (sejam eles quais forem)?
Gleison: Um fator importante a se pensar antes de responder isso é: primeiro que na Europa ou EUA se você gostar de algo produzido, tu tem que comprar, download ilegal gera multa e dependendo dos casos da cadeia e processo, no Brasil a conversa é diferente, aqui grande maioria não valoriza o material das bandas, isso é fato, são poucos que ainda compram e disponibilizam verba para aquisição do produto nacional, afinal se tem de graça na internet, por que diabos vou gastar meu dinheiro!! Infelizmente é o pensamento de grande maioria, costumo chamar esse povo de metaleiros de facebook, acham que seu like é o suficiente para uma banda sobreviver. E tome Anita, Mc Gui, Maraia e Maraiza ao povo. Isso que o Brasil merece, se a banda “ Melanie Klain” vendesse 1.000,000.00 de copias com todo certeza estariam no Faustão ou Gugu, mas não, quem vende é o lixo massivo imposto pela mídia alienadora, depois vem dizer que Headbanger é uma filosofia diferente e inteligente e reclamam da grande mídia nunca dar espaço ao Metal, mas é claro dar espaço ao que não gera dinheiro? Quem em sã consciência faria isso?

HMB: Uma vez que quase não existe o incentivo financeiro de instituições públicas para que sejam feitas mais e melhores produções para o gênero e o público por si só não é capaz de gerar receita para a manutenção do cenário e também absorver a grande demanda de bandas que surgem todos os dias, seria o Brasil, uma nação de Web-Bangers?
Gleison: Pergunta interessante e complicada de responder mas em grande parte sim, somos uma nação de Web-Bangers, a grande maioria não se interessa mais em partilhar momentos e oportunidades com presença física, ou ate mesmo a compra de material, se bem que ao se analisar eventos de bandas do Mainstream ainda somos considerados um dos melhores locais para se tocar, mesmo o país em crise o Headbanger brasileiro sempre terá R$ 700 ou mais para ir a um grande show, mas aqueles R$ 20 para comprar um CD do amigo ou ate mesmo ir no show, nunca tem. Isso só irá mudar, quando a mentalidade do público mudar, agir com força e atitude nas redes sociais, não te faz um Headbanger e sim prestigiar, comparecer, convidar e levar o público até a banda é o que diferencia o verdadeiro apoiador do Metal nacional.

HMB: Apesar de sempre muito bem produtiva, percebo que nosso cenário deu um salto de qualidade há uns 10 anos, a que você credita essa mudança, onde a busca pela qualidade dita os caminhos e produções hoje em dia?
Gleison: Isso é uma soma de fatores, uma banda é como uma empresa, é necessário buscar sempre a melhor qualidade em seu produto na hora de apresentar ao seu cliente, hoje temos sim uma vasta melhoria na qualidade das bandas, poucas ainda não perceberam essa necessidade e recorreram as melhorias, além de se preocupar com a qualidade, hoje o mercado áudio e visual tem uma quantidade maior de empresas a dispor de produções com altíssimas tecnologias e preços mais acessíveis, além é claro de atualmente a própria tecnologia estar a serviço de todos e com extrema facilidade é possível você baixar e instalar programas de áudio e imagem para que as próprias bandas trabalhem a produção de suas musicas, mas claro que um produtor sempre é importante e imprescindível para as bandas.
Concluo que hoje a evolução da informação, fácil acessibilidade aos softwares de produção e maior quantidade de empresas que prestam esses serviços, facilitam e muito a vida das bandas na procura de melhorias a sua música.

HMB: Resuma Gleison Júnior em uma frase ou palavra.
Gleison: Essa é definitivamente a pergunta mais dificil, definir eu mesmo, bom vamos lá (risos), antes de tudo sou um cara muito família, apaixonado pelos meus filhos e esposa, sou muito grato a todos do metal nacional que acreditam em meu trabalho, sinto um amor incondicional pela música criada por nossos músicos e enquanto houver força, eu estarei aqui honrando o nome do Metal brasileiro.

HMB: Obrigado pelo seu tempo e por nos proporcionar este belo bate-papo, deixe aqui uma mensagem para os nossos leitores.
Gleison: Primeiramente muito obrigado a você JP, pelo espaço concedido, espero que as pessoas leiam saibam interpretar minhas colocações nesta entrevista, o recado mais importante que deixo é que ajudem o cenário nacional, compre material, vá aos shows do Underground, compartilhe as notas divulgadas pelas bandas, LEIA mais e deixe sua preguiça de lado. E se tu é um amante do Metal, eu te saúdo!

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